Clique aqui e leia o artigo de Vanderléia Radaelli, publicado pelo jornal Valor Econômico, em 10/11/2009.

“O complexo produtivo terá de atualizar e incorporar novos conhecimentos e práticas rapidamente

A indústria farmacêutica brasileira costuma registrar persistentes déficits comerciais. Um leitor menos atento poderia atribuí-los exclusivamente ao longo domínio do mercado pelas empresas multinacionais. Sim, as empresas de capital estrangeiro costumam responder por estratégias definidas fora do território tupiniquim. Mas isso não explica a totalidade do problema dos déficits e, o pior, nossas reduzidas chances de reversão dos mesmos no médio prazo.

Mas, por que empresas oriundas de outros países, também em desenvolvimento, estão assumindo papéis crescentemente importantes na indústria farmacêutica internacional? Como obtiveram competência, ainda que pesem as elevadas barreiras à entrada, elevadíssimas em algumas fases do desenvolvimento dos medicamentos?

O caso indiano é emblemático. Tínhamos praticamente o mesmo sistema regulatório até o acordo TRIPS no começo dos anos 1990. Os mercados sempre foram dominados por empresas de capital estrangeiro e os preços, no caso da Índia, perfilavam entre os maiores do mundo. Ao contrário do que se poderia pensar, que quaisquer mudanças incrementais no sistema regulatório fossem mais rapidamente incorporadas pelas empresas dominantes e reforçassem suas posições no mercado, na Índia, essa etapa marcou a passagem da imitação duplicativa para a imitação inovativa das empresas dominadas.

No início, a estratégia foi a de fabricar genéricos para o mercado interno. Depois, produzi-los para serem vendidos em mercados sofisticados como Estados Unidos e Europa, beneficiando-se das mudanças na legislação daqueles países. As receitas obtidas na venda de produtos para mercados internacionais foram convertidas em investimentos em pesquisa e desenvolvimento que hoje sustentam o domínio de praticamente todas as fases da cadeia de valor farmacêutica.

Se as empresas nacionais tentarem emular o caso indiano, arrisco-me a dizer que já estamos atrasados. A indústria farmacêutica brasileira, que conseguiu aglutinar competências no período da engenharia reversa, tem hoje fragilidades financeiras e científicas que a impedem de sustentar investimentos baseados em rotas de pesquisas que podem não resultar em produto algum ou demorar muito tempo para recuperar o investimento inicial.

Desde 2004 o governo acertadamente atentou, além dos motivos tradicionais de saúde pública e balanço de pagamentos, para a necessidade de colocar a inovação como núcleo de uma política industrial dirigida. Foi o reconhecimento de que o complexo da saúde é complexo de fato e de que as instituições públicas poderiam apoiar no envolvimento de todos os atores do sistema setorial. O complexo econômico-industrial da saúde no Brasil está assentado em três grandes complexos: o regulatório, o assistencial e o produtivo. Permito-me breves comentários sobre o último.

Até pouco tempo atrás, as competências das empresas eram traduzidas apenas pela capacidade de copiar medicamentos gerados por outras empresas ou pela manutenção de grandes equipes de representantes. O cenário é agora completamente distinto. As múltiplas dimensões do conhecimento científico e de sua estreita relação com inovação não permitem a instauração de estratégias sem um esforço mínimo local.

As trajetórias inovativas e tecnológicas que perpassam todas as etapas da cadeia de valor mostram-se incongruentes com o período anterior, em que a proteção patentária e as dimensões econômicas e culturais derivadas eram menos relevantes. A velocidade com que o complexo produtivo terá de atualizar e incorporar novos conhecimentos e práticas é enorme e deverá ser profissionalmente planejado.

Existe um conjunto de tarefas a ser realizado por governo e indústria. Do primeiro, cabe dar maior agilidade às instituições com as quais o complexo está articulado, bem como garantir a profissionalização das mesmas. Às empresas caberá mudança nas estratégias, sobretudo para aquelas empresas que ainda apresentam gestões excessivamente concentradas em procedimentos do período anterior, do regime em que o intangível não era importante e em que o conhecimento poderia ser facilmente apropriado.

Serão excluídas do mercado aquelas empresas que não sistematizarem suas atividades em busca de níveis mais elevados de produtividade, de investimentos em inovação e da adequada gestão destes esforços por meio de parcerias e interações com centros e universidades de pesquisas. Empresas focadas apenas no local estão sob o risco de serem rapidamente superadas por aquelas orientadas para o mercado global.

Os investimentos empresariais deverão transitar do tijolo e do cimento para o intangível numa velocidade muito maior da que vem ocorrendo. As receitas obtidas com os genéricos não podem justificar a inércia.

Esta parece ser uma excelente oportunidade para o Brasil mostrar que consegue lidar com binômios, por vezes antagônicos, como preço-qualidade, ampliação do acesso-lucro, imitação-esforços internos em pesquisas, interação público-privado. As possibilidades todas estão abertas.”

Vanderléia Radaelli é especialista em Ciência, Tecnologia e Inovação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), economista e doutoranda em Política Científica e Tecnológica pela Unicamp.

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